A história do corpo de uma professora de educação física
- ana luisa Moraes
- 15 de abr.
- 4 min de leitura

Estou num momento bem importante de revisitação da minha trajetória de formação profissional e também de valorar todo esse caminhar. Como propositora do Raízes Ateliê, é sempre interessante rever estratégias de posicionamento para que o “negócio” consiga ter um diferencial e venda seus serviços. E o meu diferencial, sem sombra de dúvidas, está na autenticidade de uma vida que desde sempre pulsou em prol da vitalidade. Posso dizer que, mesmo por “caminhos tortos” aos olhos da sociedade, sinto que faço e vivo uma Boa Saúde.
Peguei este termo do filósofo Nietzsche. Um parêntese: não sou estudiosa de Nietzsche, apenas curiosa. Para ele, a saúde vai além de ser pautada através de exames médicos; ela é uma manifestação da saúde como agressão e como energia de movimento, capaz de criar uma nova ordem e se posicionar neste mundo tão normativo.
“A doença do homem normal é a aparência de uma falha em sua confiança biológica em si mesmo”, disse Georges Canguilhem.
E eu sei que a gênese do Raízes Ateliê vem deste lugar de movimento de vida. Longe de me gabar com isto, pois não podemos confundir Boa Saúde com sucesso. O sucesso é uma métrica do sistema; a Boa Saúde é uma afronta a ele. Enquanto o sucesso busca a imagem estática e a produtividade implacável, a Boa Saúde busca a fluidez da vida, aceitando inclusive nossas pausas e fragilidades como parte do movimento. Como o Raízes vem de mim, é importante contar: A história do corpo de uma professora de educação física.
Lembro muito bem os motivos que me levaram a cursar a Educação Física. Não, eu não venho do esporte, apesar de ter feito anos e anos de Ginástica Rítmica quando criança e pré-adolescente. Fiz essa graduação por algo ainda mais primal: eu me sentia em paz quando me conectava com o meu corpo. Uma sensação de inteireza quando eu me movimentava, dançava... algo ficava grande dentro de mim!
Ao entrar no bacharelado na UNESP de Rio Claro, fui me indignando com o curso. De paz ali eu não encontrei nada (risos). Vocês não imaginam o quanto eu me incomodava com aquele clima de recreação e com um curso que fragmentava o corpo cada vez mais. Ali, com 21 anos, vivi uma das minhas maiores sensações de vazio e angústia existencial. E, como o buraco era tão grande, decidi buscar elementos que me trouxessem a sensação de estar viva.
Comecei pela literatura. Também fui preenchendo a minha existência com o corpo e sou muito grata às massagens (foi quando comecei), pois ali a Educação Física fazia algum sentido, mesmo sem eu saber explicar muito bem. Também mergulhei no Yoga — quase me tornei professora — e amava exercícios solitários como bike, corrida e natação. Gostava dessa sensação de exaurir o meu corpo.
Nesta jornada, não por acaso, ao me formar fui trabalhar numa clínica de internação psiquiátrica. Eu gostava demais e me encantei pelo universo da saúde mental, principalmente pela minha conexão com os considerados “psicóticos” (não gosto de nomenclar). Fiz o meu mestrado sobre isto, com Nise da Silveira e Psicologia Analítica, já na Unicamp. Na psiquiatria, comecei a “humanizar” o meu trabalho e a utilizar tudo o que eu havia aprendido de práticas corporais sensíveis. Dava aulas de Yoga, propunha danças criativas e já utilizava minhas bolinhas de tênis para as automassagens.
Neste meio tempo, fiz a formação de Pilates e fui professora por anos. O Raízes Ateliê, na época, era um estúdio de Pilates. E a gente sabe que a vida não é para amadores. Me tornei mãe aos 29 anos, entrei num relacionamento abusivo e fui vítima das minhas próprias escolhas e ingenuidades, além da brutalidade do patriarcado. Precisava sair daquilo, ou morreria cedo. Sobrevivi e devo muito ao meu doutorado, à literatura, à dança e à potência do corpo forte. Foram anos de circo.
Para pagar as contas, eu era a professora de Pilates. Mas, como vocês devem imaginar, já era uma professora vinda de outra formação. Viver nessa pulsão é desafiador, já que te coloca em grandes aventuras. É uma vida em movimento. Fui me envolvendo cada vez mais com a dança e também com o conhecimento aplicado da fáscia. Fui me enchendo de vida e, ao mesmo tempo, envelhecendo. Doido isso, né?
Depois mergulhei de cabeça na Arte. Faço isso desde 2023, mantive os atendimentos com as massagens e aquela professora de educação física que eu apelidava com desprezo de “professorinha do corpo” foi indo embora. Mas sabe? Tem coisas que queremos matar na vida que não dependem da nossa escolha. Queremos nos desfazer porque é muito mais fácil jogar fora do que olhar as sombras por trás... Mas a vida — a vida real, não o capitalismo — não permite que joguemos nada fora.
Hoje eu sinto força na Educação Física e não mais desprezo. É tanta lapidação e aprendizado ganhos nessa trajetória existencial de corpo que, por que não agora, fazer uma Re-Educação Física? E isso inclui tudo! É sobre corpo! E corpo é afetação! Entram as massagens, as aulas de liberação e fortalecimento e a arte.
Proponho um trabalho do corpo para além dos benefícios imediatos — como alívio de dores, distribuição de forças, integração e ganho de mobilidade. Proponho uma educação para nos lembrar de algo básico e urgente: somos sensíveis, somos capazes de construir beleza e de desfrutar a alegria de estarmos vivos. Desejo Boa Saúde para todas as pessoas que aqui habitam, do fundo do meu coração.
referencia bibliográfica:
Groys, Boris. Filosofia do cuidado. editora Âyiné. 2023.




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