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Aprendendo com Morgana



Os textos que aqui escrevo geralmente refletem uma conexão com o meu mundo interno e, claro, trago também as reverberações nos fazeres artísticos e nos meus atendimentos.


Ultimamente, tenho passado por um grande processo que nem chamo de transformação, mas de transmutação. E, claro, esse processo não tem a ver com uma experiência similar a uma luz que traz iluminação; pelo contrário, essa transmutação tem a ver com anos de mergulhos em processos internos escuros, artísticos e terapêuticos. Finalmente, sinto-me alicerçada, com meus pés no chão — ou melhor, pés afundados em raízes caudalosas. O que me traz firmeza para fazer escolhas, que também podem ser radicais; aliás, é uma transmutação e não uma transformação. Vale salientar a coletividade do processo, pois tudo isto também é possível por ter "pessoas-raízes" e sensíveis, terapeuta e amigues, que também me mostram caminhos de mudança e atuam na minha vida com o próprio exemplo do bem viver, querendo-me genuinamente bem.


Não há como deixar de lado também a importância da literatura neste momento. Sinto que são os livros que me escolhem, e não o contrário. Gosto muito de parafrasear Doris Lessing:


“[...] existe algo mais estranho do que o modo como os livros que refletem nossa condição ou estágio da vida acabam se insinuando em nossas mãos?” (2011: 19).



Assim, trago As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Essa história magnífica cai em minhas mãos em sincronicidade com as narrativas do Ateliê e do meu mundo. Para quem não conhece a obra, em quatro volumes, ela reconta a lenda do Rei Arthur sob o olhar das mulheres que detinham o verdadeiro poder: as sacerdotisas da Ilha de Avalon. O centro da narrativa é Morgana, que luta para preservar a antiga religião da Deusa frente à chegada do cristianismo patriarcal. É uma história sobre o direito das mulheres de serem as protagonistas de seus próprios mistérios e corpos.

Trago aqui uma passagem que me direcionou para este texto, referente ao início do último livro. Quando Morgana, após sofrer uma agressão e humilhação perante um homem, não se coloca no lugar de vítima passiva e invoca o espírito da Velha Porca — um animal que, na mitologia celta, simboliza a força bruta, o perigo e a morte. Através de uma feitiçaria de validação de seu próprio sofrimento, ela faz com que o agressor seja caçado e atacado pelo animal na floresta. Morgana transforma a marca traumática em potência mágica.


Por que esse trecho foi tão impactante para mim? 


Porque ele mostra o quão importante é abrirmos espaços para estarmos mais aptas a sentir a vida e para reconhecer e validar nossos sentimentos. Quando eu li esse trecho, senti uma potência em não mais temer as forças malignas e o estado selvagem. Na arte eu ja tenho essa facilidade, mas aqui estou falando na Vida. O quanto validar a raiva traz um alívio existencial profundo, como uma liberdade em ser vilã e soberana da própria vida.

Percebi, em uma auto-observação fina dentro desta cultura patriarcal, algo muito significativo: antes de entrar nessa transmutação atual, eu me sentia como uma menina, mesmo com meus quarenta anos. Agora, sinto-me uma Mulher pela primeira vez. Esta mulher não tem mais receio de ser “abandonada” ou de “fazer o mal”. Como Mulher, é possível olhar para os próprios limites e para os territórios que precisam ser preservados e cultivados com abundância. O trecho da Morgana foi o espelho necessário para que eu iluminasse uma vida pautada em uma "bondade" que, na verdade, era uma forma de proteção contra as minhas fragilidades de alguém que queria ser amada a qualquer custo. Quantas mulheres trazem em suas histórias as violências do patriarcado que as colocam nesse mote existencial de medo do abandono?


Ver Morgana invocando a "Velha Porca" não me trouxe um desejo de vingança física, mas a legitimação da própria fúria e do próprio valor. Quando me volto para essa cena — que, aliás, é violenta — pego os meus sentires e me permito sentir de fato. Sim, sou desrespeitada muitas e muitas vezes. e não é apenas sobre homens, mulheres invejosas também. Não faço uso do caminho de Morgana como reação, mas faço da validação dos meus sentires um norte para me afastar de pessoas que não me agregam vitalidade.

É um momento de vida em que falo muitos "Nãos", os quais tornam-se as minhas verdadeiras magias. E isto não me torna uma pessoa reclusa, mas alguém que busca se sentir segura para ser autentica e, ao mesmo tempo, ser afetada por pessoas no mesmo fluxo de crescimento, nutrindo-me dentro deste universo de conexão onde as trocas são o cerne das relações. E sinto que apenas consigo estar nesta composição porque de fato eu não tenho medo algum de ficar sozinha. Aliás, amo a minha solitude.


Por isso, sinto ser tão importante que, nos meus atendimentos, eu seja a figura da propositora: porque agora conheço o meu círculo de proteção. 


Já não temo o abandono do outro, pois não aceito mais abandonar a mim mesma. Sinto-me transmutando em uma espécie de Sacerdotisa Contemporânea — aquela que não vive isolada no templo, mas que metaboliza a vida, inclusive as potências do erotismo.



foto do Gustavo Janinini da performance Eclipse.



Referencias Bibliográficas:


Bradley, Marion Zimmer. As brumas de avalon. 2 edição. São Paulo: Planeta, 2018. 


Lessing, Doris. Amor, de novo. São Paulo: São Paulo: Companhia das Letras, 2011.




 
 
 

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