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A Sorte dos Encontros e a Paranoia do Avesso





Hoje senti a sorte dos encontros. Quando menciono a "Sorte", sempre recordo a frase de Walt Whitman: “Boa sorte sou eu mesma”. Não no sentido narcísico, mas como uma construção de vida que aproxima pessoas que têm ressonância conosco e com um compromisso com a vida. É assim que acontece com quem se aproxima do Raízes Ateliê para usufruir dos meus serviços. Uma troca, compartilhamento, de sabedorias! 

Um dos trabalhos que estou retomando aos poucos é o movimento e o fortalecimento feitos de forma integrativa. E a sorte está em retomar com a Sofia; logo mais divulgarei essa volta através de aulões.


Este texto, porém, é para detalhar um momento da aula desta semana em que fui presenteada com uma citação literária. Para contextualizar, no final da nossa prática, nos dedicamos à percepção sutil do corpo. Apliquei na Sofia as técnicas de Calatonia — toques sutis criados pelo médico húngaro Pethö Sándor. Aqui, o objetivo não é "fazer" algo no corpo, mas sim "estar com" o corpo, permitindo que o sistema nervoso se autorregule. Na nossa prática de hoje, a Calatonia ajudou a Sofia a integrar, no corpo físico, os seus insights emocionais. Ela deixou de ser ativa — quem fazia os exercícios — e se tornou receptiva à própria existência.

É parte desta modalidade do ateliê ter um caderno para registrar esses sentires no final da aula. E ela simplesmente me presenteou com uma passagem de J.D. Salinger que guardava na memória. Transcrevo aqui para que vocês também sintam a potência:


“Quando eu começar a me consultar com um analista, Deus me ajude que ele tenha a brilhante ideia de deixar um dermatologista assistir à consulta. Um especialista em mãos. Eu tenho cicatrizes nas mãos por ter encostado em certas pessoas. [...] Certas cabeças, certas cores e texturas de cabelo humano deixam marcas permanentes em mim. Outras coisas, também. A Charlotte uma vez fugiu de mim, na frente do estúdio, e eu agarrei o vestido dela para fazê-la parar, para ela não ir longe de mim — um vestido de algodão amarelo que eu adorava porque era comprido demais para ela. Eu ainda tenho uma marca amarelo-limão na palma da mão direita. Ah, meu Deus, se eu tenho uma coisa que cabe num nome clínico, eu sou um tipo de paranoico pelo avesso. Eu suspeito que as pessoas estão tramando coisas para me deixar feliz.”


 — J.D. Salinger, em "Erguei bem alto a viga, carpinteiros" & "Seymour: uma introdução".


Fiquei muito tocada com essa passagem. Essa sensibilidade com a pele, as marcas, as histórias... A Sofia trouxe esse trecho tão potente porque foi tocada de forma sutil: estávamos com o corpo, e não fazendo algo com o corpo!

Agora eu tenho um sonho: ser uma paranoica do avesso! E já sei o caminho: cuidar demais da minha "malha-pele". Práticas de cuidado corporal que me tragam, pouco a pouco, essa percepção de que as pessoas estão tramando pela minha felicidade.

E é esse o convite que estendo a quem chega: que possamos, através do movimento fascial e dos atendimentos pelos toques, olhar para as cicatrizes e permitir que essas marcas se transformem em fendas para nos iluminar. Que o Raízes seja esse laboratório onde a gente reaprende a confiar que o mundo, sim, conspira a nosso favor. E  re aprender que a pele é este envoltório humano capaz de, ao mesmo tempo, nos proteger e nos dar limites, é capaz de nos afetar de forma potente quando estivermos em ambiente saudável. 


Vamos cultivar essa Sorte juntes?


 
 
 

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