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A memória, a pele com a pele e a presença. 


Por estes dias, fui banhada por uma imagem que atravessou o tempo: o momento de amamentar meus filhos. Lembrei da delicadeza do meu dedo mindinho retirando o bico do seio da boca deles enquanto dormiam — o toque exato na língua molhada de leite e saliva. Recordei o estado de entrega absoluta: os braços esparramados, a respiração profunda e o semblante de paz que só um bebê conhece.


Essa memória me nutriu em um momento improvável: no banco traseiro do carro, entre o trânsito, o calor e as tensões físicas da TPM. Ao olhar os farfalhos das copas das árvores e tocar a palma da mão da minha filha, hoje com 16 anos, senti o que chamo de "sensação do amor" — um calor entre palmas. Ali, compreendi: a vida é sobre presença e pele.


Como diz o dramaturgo Peter Brook, as memórias não estão congeladas no cérebro; elas aguardam "o poder da imaginação para dar-lhes vida". Essa benção me visitou justo quando eu elaborava o texto da semana sobre a importância do toque.


A pele — nosso maior, mais antigo e sensível órgão — é o nosso primeiro meio de comunicação. É ela que nos oferece os contornos literais da existência. Quando há o pele com pele, ocorre uma co-regulação do sistema nervoso; o ritmo cardíaco e a respiração se sincronizam, a pressão arterial baixa e o sistema nervoso central se acalma sem que precisemos "fazer" nada. É pura medicina. Uma direção direta para o estado de presença.


O desfecho desse dia foi um retorno a esse estado de bebê. Ao ser atendida pela terapeuta corporal Egle Prem Zahir, eu, que tanto toco e acolho, pude ser embalada. Toques de seda, mãos de pluma. Chorei rios, me perguntando por que a vida insiste em ser tão dura, quando o que queremos é pele, penas, sopros e águas abertas.

Permitir-se viver esses calores humanos é a maior riqueza da vida. Essas experiências me revelam o ponto vivo e basal do erotismo — não a linguagem adulta, mas a busca orgânica e psíquica pelo toque e pelo prazer genuíno de existir.


Um salve às memórias que nos presenciam e as nossas aberturas à elas. Um salve aos encontros de presença. É sobre essas manifestações de vida que o Raízes Ateliê tem se construído. Aliás, é sobre elas que o meu próprio corpo se constrói.


Referencias bibliográficas:


BROOK, Peter. Fios do tempo: memórias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.


MONTAGU, Ashley. Tocar: o significado humano da pele. 9. ed. São Paulo: Summus, 1988.






 
 
 

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