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O Exorcismo dos Meus Próprios Pudores


Este texto é um relato de como olhei para meus próprios preconceitos conforme fui adentrando, pouco a pouco, na performance "Corpo Escárnio e o Exorcismo dos Pudores", da artista não binária Samuel Menezes, que acontecerá no dia 28/03, na quarta edição do Palco Intimista aqui no Raízes Ateliê.


Não sei se todes sabem, mas a performance é um grande deboche sobre as possessões demoníacas. O trabalho foi a forma como Samuel metabolizou seus traumas do passado e sua relação com uma religiosidade tóxica. Nessa obra, a artista expurga pudores, nomeia medos e transforma o trauma em movimento, libertação estética e política.


Samuel chegou por indicação da minha parceira arteira, Luca D´Alessandro, a quem agradeço demais. Nas ordens práticas para acolher um trabalho artístico aqui no Ateliê, é necessário refletir como a estrutura do espaço físico recebe a performance. Foi a partir daí que surgiram minhas fantasias. Confesso que sinto certa vergonha em me expor aqui, mas o faço por sentir que essa exposição servirá de espelhamento para outras pessoas — que não devem ser poucas — que podem se sentir como eu.


Quando Samuel comentou que precisaria de espaço para desenhar uma estrela de cinco pontas invertida, um medo imediato me bateu. Pairavam pensamentos como: "Nossa, que pesado, vamos fazer um culto satanista dentro do Ateliê? Como vai ficar a energia do espaço? Como vou equilibrar essa densidade 'demoníaca' com a luz que tanto cultuo nos atendimentos? 

A partir dessas perguntas — e, mais do que isso, desses medos — comecei a aprofundar o tema dentro de mim. A reflexão tomou o lugar do receio e o conhecimento substituiu o pavor, processo que contou com toda a parceria de Luca e de Samuel. Naquela época, eu terminava de ler "Calibã e a Bruxa", de Silvia Federici, que detalha a associação que o cristianismo fez — e faz — das mulheres e bruxas ao pacto com o Diabo. Ela explica como elementos da sexualidade feminina, antes vistos como fontes de poder (a capacidade de curar, de dar prazer, de prever o futuro), foram transformados em instrumentos do Mal.


Com essas informações, percebi o quanto meus "fantasmas energéticos" são, de fato, uma impregnação cultural cristã. Os demônios que crio e projeto no externo são meus próprios medos e sombras. Afinal, é muito mais fácil aceitar que o "demônio" é o responsável pelas mazelas do que olhar para si mesma... e é exatamente assim que operam os moralismos.


A partir disso, sinto que é fundamental questionarmos se o que chamamos de "baixa vibração" ou "densidade" não é, muitas vezes, apenas o nosso estranhamento diante do que foge ao controle moral cristão. Fazemos isso com a sexualidade o tempo todo.

A performance de Samuel Menezes foi um presente para minha vida, já que, no processo de instalação aqui no Ateliê, também expurguei meus próprios dogmas. É uma honra absurda receber este trabalho no Raízes. Hoje consigo afirmar, mais uma vez, que na arte e nos processos criativos a sombra não é o oposto da luz, mas a sua profundidade, a sua potência e a sua beleza.


foto de Samuel Menezes.


 
 
 

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