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O Ser Pele

Atualizado: 4 de mar.




Como terapeuta manual que lida diariamente com a pele do outro, e como artista que expõe o próprio corpo em nudez, tenho refletido profundamente sobre o "Ser Pele". Na vida íntima e afetiva, quando permito sentir a pele do outro em conexão com a minha — com o coração quente e em comunhão — algo mágico acontece.


Como humana, independentemente da minha atuação, tenho me aberto para sentir de verdade a pele do outro. Tem sido uma pesquisa sensorial e existencial: quando me proponho a esse mergulho — sim, sinto como um mergulho — sinto que um universo se abre. A temperatura, a textura, o tônus e tudo o que brota dentro de mim... Fecho os olhos, passeio pelas sensações do tato e entro em uma meditação ativa, um estado de presença sem igual. Sou beneficiada pelo suprassumo da vitalidade, e o outro também.


Aqui, é sobre troca.


Não falo apenas de técnica — embora seja bom que ela exista. Mas, se eu não me abrir para sentir o outro ali, de verdade, os melhores cursos perdem o sentido. Diante de outra pessoa, a frase célebre de Jung sempre ecoa em mim:


Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana".


Como mencionei na semana passada, a pele e o sistema nervoso têm a mesma origem embrionária: a ectoderme. Por isso, a pele é o que temos de mais profundo, mesmo estando do lado de fora. Ela é o nosso cérebro espalhado pela superfície do corpo; o lugar exato onde o "dentro" e o "fora" se encontram.


A pele é um continente. Ela nos dá limites, mas também nos oferece a porosidade necessária para sentir o mundo. Tenho pensado muito sobre esses limites: noto que, na maioria das vezes, quando fico rígida, meus limites são defesas e proteções contra a própria vida, e não algo benéfico. Quero aprender a dar limites ao outro sendo mais pele do que mente. É o meu mental que se defende e tem medo; a pele, por sua própria natureza, sabe trocar.


O psicanalista Didier Anzieu defende que um "Eu" saudável precisa ser como a pele: firme o suficiente para não se esvaziar, mas poroso o suficiente para que o mundo possa entrar e ser metabolizado.


Nesse aprender a ser mais pele do que mente, existe, no fundo, o aprender a estar disponível para o encontro. É entender que o toque não termina em mim, nem começa no outro: ele acontece no "entre".


O toque é mais fundamental do que podemos imaginar. Estou nessa descoberta incrível: no trabalho, na arte e na vida.


Vamos nos abrir para sentir de verdade?





foto de Vinicius Cruz.



referencias bibliográficas:


Anzieu, Didier. O Eu-Pele. Editora Casa do Psicólogo, 1985.



 
 
 

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