top of page

O Erótico como Presença e Criação




Quando trazemos a palavra "erótico", comumente nos vêm à mente imagens fetichistas, lingeries e cenas ligadas ao sexo em si — e, para algumas pessoas, muitos tabus. Mas o erotismo, de fato, se detém apenas nisso?


Vou trazer a minha experiência para desenvolver essa resposta. Quando comecei a me aprofundar no erótico, lá em 2021, fiz isso junto com as minhas manifestações artísticas. E, pasmem: a minha primeira criação erótica em dança, o Eclipse, nasceu em uma época em que coloquei toda a minha libido na arte. Lembro-me muito bem: foi um período regado por um extenso tempo de celibato. Foi a melhor coisa que fiz!


E é por aqui que quero começar este texto: o erotismo tem, sim, a ver com a sexualidade, mas trata muito mais de uma sexualidade que se conecta com a potência de vida. Conecto tal potência totalmente com a arte e com as nossas possibilidades de transformar desejos em criação. Muitas vezes, como já falei na semana passada, o que chamamos de "desejo" não passa de uma reprodução de um querer que não é nosso, mas sim hegemônico. Quando temos a possibilidade de relacionar a arte e o erotismo, o desejo começa a ganhar outras caras.


Não tem como não lembrar e citar a pensadora preta, lésbica, mãe, guerreira e poeta Audre Lorde (1934–1992) e seu texto intitulado: “Usos do Erótico: O Erótico como Poder”. Nele, ela conecta a potência do erotismo também como um ato de criação carregado de presença e autenticidade.


Infelizmente, o que vemos hoje na cultura patriarcal é um erótico restrito à genitália e ao uso direto para beneficiar apenas o desejo masculino. Para ser bem sincera, independentemente do gênero, todo mundo perde com essa lógica, que mais anestesia e violenta o sexo do que traz vida. É um fato ordinário que o ato mais humano, e estritamente relacionado à criação da vida, seja justamente o mais desconectado do corpo e das nossas capacidades de sentir. O mundo realmente está estranho.

Por isso gosto tanto de trazer o erotismo. Viver o erotismo. E fazer isto com a arte, porque é aqui que podemos criar novas formas de habitar o nosso desejo.


Gosto demais de lembrar que a palavra estética vem do grego aisthesis ($αἴσθησις$), que significa sensação, percepção ou sensibilidade. Nessa origem mais pura, a estética não tinha nada a ver com "padrões visuais", mas referia-se à nossa capacidade de sentir o mundo através dos sentidos. Portanto, é o oposto da anestesia ou da ausência de sensação.


E as mulheres e sua produção erótica são maravilhosas em nos evidenciar esse caminho construído pelos sentidos e pelas texturas da vida. O sexo torna-se apenas o ápice de um longo processo de sedução dos sentidos. Anaïs Nin (1903-1977), a rainha da escrita erótica, em Erotismo Feminino (1976), diz: “O erotismo é o uso de todos os sentidos para atingir um estado de êxtase”.


Seguindo essa linha de raciocínio, fazer a integração entre arte e erotismo é trazer à produção artística o enlevo de estarmos vivos, criando uma arte que destampe todos os sentidos da existência. Agora começo a ter mais clareza sobre o porquê de eu sempre refutar que "toda arte é erótica". Não é toda arte, não. Mas suspeito que a arte cultivada com o aumento da potência do sentir, sim, pode nos atribuir o êxtase em estar vivos.

Para encerrar este texto, quero levantar algumas bandeiras e conclusões: o erotismo, portanto, não se limita à sexualidade que nos foi condicionada. Quando associado à potência artística, torna-se uma forma fantástica de combate à anestesia dos corpos, tão comum hoje em dia.

O êxtase em estarmos vivos torna-se um compromisso político, pois o que venho construindo é uma vida que não aceita migalhas — muito menos uma vida sem brilho e alegrias!

Um ode ao erotismo e à prática radical da presença: um convite para que o corpo não apenas habite o mundo, mas o sinta com a intensidade de quem sabe que a criação é a nossa forma mais profunda de oração e de liberdade.


E o que o seu corpo é capaz de sentir?




foto de Gustavo Jannini, na estreia do Eclipse em 2023 no MIS em Campinas.



Referencias bibliográficas:


Lorde, Audre. Usos do Erótico: O Erótico como Poder, 1978.


Nin, Anais. Erotismo Feminino (In Favor of the Sensitive Man and Other Essays), 1976



 
 
 

Comentários


bottom of page